Aprendendo a lidar com o medo

Você já subiu no vulcão Anthar?

Nunca. Não é proibido? Dizem que é perigoso, pois ele pode entrar em atividade.

Ravi sorriu como quem se dirige a uma criança a quem disseram que o fogo é perigoso porque queima, que a água é perigosa porque afoga, que os animais são perigosos porque mordem, e que tudo deve ser temido porque é perigoso de alguma maneira, ainda que não saibamos de momento qual seja. A educação pautada no medo fazia rir a Ravi, mas era um riso de condescendência e ao mesmo tempo de tristeza, diante da incapacidade humana em se fazer entender de forma construtiva, mesmo pelas crianças.

A humanidade havia desaprendido como ter obediência por respeito e por admiração. O medo era a ferramenta mais fácil, começava a ser utilizada na infância e continuava até a morte, o maior de todos os medos. As pessoas viviam com medo e morriam com medo, quando não morriam, muitas vezes, do próprio medo. O instrumento natural de proteção e sobrevivência era transformado em aparelho de letargia e inconsciência.

Se ele entrar em atividade, não fará muita diferença estarmos dentro da sua cratera ou estarmos bem aqui neste quintal olhando para esse bosque. Teremos apenas alguns minutos a mais para olhar de frente a nossa própria morte.
É muito interessante essa passagem do livro ´Paz Guerreira´ de Talal Husseini. A obra toda é cheia de ensinamentos em meio a uma leitura épica cativante que prende o leitor o tempo todo. Aqui ele dá mostras de como nossa sociedade tem vivido vitimada pela manipulação do medo por todas as coisas.

Como muito bem foi falado, o importante é desenvolver a consciência aprendendo a ter obediência por respeito e por admiração. E não pela imposição do medo. Uma qualidade própria e natural do ser humano, o respeito e a admiração fazem com que conheçamos cada uma das coisas as quais tomamos contato, sejam elas objetos, plantas, animais ou pessoas. O verdadeiro líder desenvolve sua qualidade de conhecer cada vez mais tudo aquilo da qual ele entra em contato. Não teme as pessoas, pelo contrário, procura conhecê-las para poder entrar em sintonia com as mesmas e produzir a partir dali algum tipo de harmonia que beneficiará a todos.

Muitas vezes tomamos por ruins pessoas que no fundo estão precisando de ajuda, que se encontram confusas ou em situações difíceis. O mais fácil seria admoestá-las e criticá-las e, caso estejam nos perturbando, reclamarmos para alguém que tome uma medida para extirpar o problema, omitindo-nos da responsabilidade por fazer algo. O que pode acontecer na maioria das vezes é que aquele que achávamos que tomaria a providência não consegue resolvê-lo e o que é pior, deixamos uma tensão ainda maior no ar.

Se, pelo contrário, procuramos nos envolver com tais pessoas, aproximando-nos gradativamente delas, procurando pontos de empatia para podermos nos relacionar com elas, perceberemos que depois de um tempo a sinergia nos possibilita tocar em assuntos que antes não podíamos porque éramos desconhecidos. Dessa forma, o respeito e a busca do ponto de ligação com o outro fez com que o envolvimento fosse possível.

É preciso que percamos o medo de nos relacionar com as pessoas por serem ´diferentes´ de nós. Também precisamos perder o medo do desconhecido, às mudanças e às transições. E isso só será possível a partir do momento que encaremos a vida sem deixarmo-nos dominar pelo medo. A partir do momento em que deixarmos de lado a mentalidade temerosa a qual fomos induzidos ao longo dos anos, compreenderemos o sentido e a importância das coisas por nós mesmos.

Estudando suas características, seus malefícios e benefícios, tendo sempre conosco o respeito por tudo e os objetivos altruístas que norteiem nossos passos, poderemos fazer do medo uma ferramenta que nos alerte de perigos para que tomemos cuidados e nos preparemos adequadamente para superar cada obstáculo que a vida colocar diante de nós.